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O café e a saúde

Quando comecei a me aventurar no mundo dos cafés especiais, eu abusava cafeína, muitas vezes me sentindo “imune” aos seus efeitos. Em 2008, tive contato com o livro Why We Sleep, do Dr. Matthew Walker, que me fez questionar padrões de consumo e estilo de vida que não estavam alinhados com meus objetivos de saúde. Com o tempo, essa curiosidade se expandiu. Além do impacto no sono, comecei a me informar sobre o café e outros aspectos da biologia humana, como metabolismo e colesterol.

É estranho que torrefações e cafeterias raramente abordam esse tema. Cafeterias promovem “happy hours” à noite. Restaurantes oferecem — e incentivam — café após o jantar. Enquanto isso, a evidência científica é clara: para a maioria das pessoas, cafeína no período da tarde pode impactar negativamente o sono, mesmo quando a pessoa acredita que dorme bem.

Este texto é uma tentativa de organizar o que a ciência mostra hoje sobre esses impactos, especialmente no sono e no colesterol, e como pequenas escolhas no consumo podem fazer diferença no longo prazo.

Cafeína, sono e recuperação

O sono é um pilar fundamental da biologia humana. Durante o sono, o corpo regula hormônios, consolida memória, repara tecidos, remove resíduos metabólicos do cérebro e ajusta o sistema imunológico. Dormir mal afeta diretamente cognição, humor, metabolismo, sensibilidade à insulina e risco cardiovascular.

Café não “tira o sono” — ele tira a profundidade do sono. E isso acontece mesmo quando você acha que dormiu bem!

Fatos

  1. A cafeína bloqueia receptores de adenosina e altera a arquitetura do sono. O resultado é um sono mais superficial: você dorme, mas acorda cansado. Compensa com mais café no dia seguinte, criando um ciclo vicioso.
  2. Existe uma variabilidade genética associada ao gene CYP1A2, que influencia a velocidade de metabolização da cafeína. Para quem consome muito café, faz sentido testar para otimizar os padrões de consumo.

Estratégias

  • Não confie na sua percepção — Conseguir adormecer não significa que o sono foi de boa qualidade. Uma forma de começar a observar os efeitos da cafeína é usar um smartwatch para comparar métricas de sono com e sem cafeína.
  • Evite café após as 14h — Uma estratégia conservadora baseada na duração da cafeína. Se você dorme por volta das 22h, o último café idealmente seria após o almoço. Para quem metaboliza mais lentamente, limitar o consumo à manhã é a melhor estratégia.

O impacto no colesterol

O colesterol é necessário para o funcionamento da biologia humana, sendo fundamental para funções como a produção de hormônios, a estrutura das células e a síntese de vitamina D.

Em exames de sangue, um marcador comum é o LDL-C, que indica a quantidade de colesterol transportada pelas partículas de LDL. Ele funciona como um proxy do ApoB, que representa o número de partículas capazes de penetrar a parede das artérias e iniciar o processo que leva a problemas cardiovasculares.

Fatos

  • O café contém diversos compostos. A cafeína é o mais conhecida, mas cafestol e kahweol são diterpenos que podem aumentar o LDL-C, por reduzirem a expressão dos receptores de LDL no fígado, reduzindo a remoção natural dessas partículas.
  • Esse aumento de LDL-C pode, em algumas pessoas, se refletir em maior número de partículas ApoB, que são as efetivamente envolvidas no processo que causa doenças cardiovasculares.

Estratégias

  • Prefira filtradosCafé coado em papel tem impacto mínimo ou nenhum sobre o LDL-C, pois o filtro retém grande parte dos diterpenos.
    • “E se eu filtrar o espresso?” Em teoria, reduziria os diterpenos, mas não há evidência sólida mostrando que isso torne o espresso equivalente ao café filtrado. Na ausência de dados, prevenção ainda é a melhor abordagem.
  • Espresso ocasional — O consumo ocasional de espresso ou café não filtrado provavelmente não representa um problema relevante; o risco cardiovascular está associado à elevação consistente do LDL-C / ApoB.
  • Monitore — Para quem consome regularmente (ou de modo abusivo) espresso ou french press, faz sentido monitorar o ApoB ao menos uma vez por ano. Existem várias estratégias para reduzir ApoB, mas elas fogem do escopo deste texto e devem ser discutidas com um médico.
Isenção de Responsabilidade: As informações contidas nesse artigo não são recomendações médicas. Se você acredita ter problemas de sono ou cardiovascular, consulte um médico.